segunda-feira, 30 de novembro de 2009

CARTA ABERTA DE REPÚDIO

por Daniel Haigert

Estou tal qual o Pequeno Príncipe nesse blog.

Carlos deixou-me escrever deliberada e exclusivamente sobre o Colorado Internacional. Gabriel nunca quis escrever uma linha sequer.

Da parte azul, Quadros, nosso Santaninha, de tão revoltado com tudo, parou até de pagar a mensalidade no Clube Tricolor - imaginem escrever. Rodrigo, só aparece nas horas do foguetório, e anda mais ocupado com e-mails do que com blogs. E Adriano está em Portugal, e em Portugal não tem internet.

Assim, fica aqui meu registro de repúdio ao silêncio dos meus parceiros de blog, pelo que penso (logo, existo) em mudar-me de sítio - as ofertas já pipocam cá e lá.

Venham a público, agilizem-se. Ou morram com seus devaneios.


?POR QUE NO TE CALLAS?
























por Daniel Haigert

A foto é linda. O fato é triste.

Torcer pelo Grêmio, ou mais exatamente (e pior), para que se materialize a "imortalidade" do Grêmio, é fato que beira as raias da crueldade com todo e qualquer Colorado que se preze.

É uma coisa tão inconcebível que fogem as palavras. Como diria meu cumpadre Quadros, algo "mais feio que coxar a mãe no tanque".

Que coisa degradante...

Não tenho dúvida alguma que o Grêmio irá perder para o Flamengo - muito embora eu ainda tenha (alguém me explica isso!) uma ponta de esperança que aconteça a história sobrenatural de Alan Kardec, por mim escrita num devaneio psicótico espírita que tive semana passada - aliás, deveria ter apostado na Loteca.

Sinto-me como aquele condenado à guilhotina, que atado, encapuzado, e de joelhos, humihantemente é questionado sobre suas últimas palavras, ao que responde, talvez por conta do estado letárgico que se encontra: "- Quais as chances da guilhotina emperrar?"

Ora, amiguinhos, não há chance alguma. A guilhotina não vai emperrar, e aquela merda vai despencar lá de cima podando tudo, inclusive a (minha) cabeça.

Estou assim: anestesiado.

Sei que não ganharei o título - aliás, este foi perdido pela própria incompetência de todos envolvidos no futebol Colorado e que reinou nos tempos de treva que se instalou no Beira-Rio tempos atrás.

Sei que não ganharei o título, mas ainda existe uma desarrazoada esperança dentro de mim. Não me pergunte porquê. Nem zombe. Talvez seja dessas coisas inexplicáveis do amor -"?por que no te callas?". Desse "não sei quê" que nos move ao estádio toda quartaidomingo, faça chuva, faça sol, para ver 11 bem pagos rapazes de vermelho enfrentarem outros 11 bem pagos rapazes, todos atrás da bola.

Quisera eu não ter essa chama de esperança maluca que me corrói a alma e que só cessará domingo, às 18:45hs, quando o juiz apontar o centro do gramado do Gigante e desligar meus aparelhos.

Até lá, tenho que remoer esse sentimento cruel de crer, mesmo sem querer, no inacreditável; de acreditar mesmo que contra o racional, em morto-vivo; de torcer para que a merda da guilhotina emperre.


(fico devendo o nome de quem tirou essa foto, mas acho que foi algum fotografo da Zero Hora)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

HISTÓRIA SOBRENATURAL

por Daniel Haigert

Inspirado pelo tango de Pablo Guiñazu e Andrés D´Alessandro, o nosso selecionável Alan Kardec resolveu alçar voo no mundo da literatura, e lançou uma lenda, uma história sobrenatural, que transcende o mundo que conhecemos. Conto-lhes:

Chovia naquela tarde de Goiânia. Fernandão e Pedro Iarley entraram em campo carregando o time esmeraldino com toda força contra os arcos de Rogério Ceni. Na raça, e na coloradice marcada na alma de cada um daqueles antigos heróis rubros, Fernandão, de cabeça, alcançou um cruzamento da direita feito por Pedro Iarley, marcando Goiás 1 a 0. Pedro Iarley, numa escapada dentro da área, após cortar o zagueiro, fuzilou Rogério Ceni, Goiás 2 a 0. Fim de jogo. Viva o punk dos anos 90: Pânico em SP. Estagnado, São Paulo com 62 pontos.

Em Campinas (porque lá?), longe de sua Fiel, o Corinthians entrou em campo para cumprir tabela, de sangue doce, de corpo mole, dizendo aos quatro cantos: "- Dane-se o eterno rival São Paulo. Dane-se o Inter, que nos ferrou em 2007 ao perder pro Goiás, em Goiânia" (mesmo tendo Clemer pegado dois penalties, e não termos ganho do Grêmio). Adriano, 1 a 0. Petkovich, candidato a craque do Brasileirão, segundo tendencias das redes de TV, de falta, 2 a 0. Foi decretado Carnaval antecipado no Rio. Foi imposto feriado Municipal, Estadual, a contragosto de um louco toque de recolher. "Vai dizer pra ela, que o Rio de Janeiro é uma favela". Rajadas de fuzis de alegria. Mais de mil balões no ar. Flamengo, 64 pontos.

Em Recife, um esforçado e embaralhado Inter arrancou uma suada vitória sobre o Caza Caza Caza Sport, na Ilha do Retiro. Sustos como nunca, loucura como sempre. Alecsandro, de cabeça, 1 a 0. Nego Taison, rasteirinho, no canto, desempatou, 2 a 1. Inter, 62 pontos.

Chegou o dia 06 de dezembro. Seis de doze. Seis mais doze, dezoito, divide por dois, nove, nove de mil novecentos e nove. Data do ano de fundação do Inter. Isso obviamente queria dizer alguma coisa. O sol brilhou amarelado na tarde portoalegrense. Uma luminosidade estranha. Murmurinhos pela cidade. Zumbidos. Muitos zumbidos, nenhum alarde.

O São Paulo, dando tchau pro título, arrasou o Sport. Fim de jogo e um esperado 4 a 0, e 65 pontos.

O Inter superlotou seu estádio. Beira-Rio, 40ºC, 57 mil pessoas aglomeradas, ansiosas e esperançosas, fardadas de vermelho e branco, jogaram 90 minutos com o time Colorado. E deu no que deu: Inter 3 a 0 no rebaixado Santo André. Fim de jogo, líder provisório, com 65 pontos, mas com uma vitória a mais que os outros concorrentes, o Colorado Internacional era o virtual candidato ao título.

Mas, naquele momento, ainda faltava um jogo a terminar: No festivo Rio de Janeiro, onde todos os focos miravam os seres fantasiados das arquibancadas, o Flamengo, com 89 mil torcedores no Maracanã, enfrentou o arquirival eterno do Inter, o 'imortal' Grêmio.

Eu, Alan, presenciei o ato na mini tv de um jornalista na beira do gramado do Beira-Rio. Me arrepio somente de lembrar.

Eram 46 minutos do segundo tempo. O imortal tricolor dos pampas estava ferido de morte. Agonizava em campo com seu futebol medíocre, o mesmo que havia apresentado no decorrer do campeonato inteiro nos jogos fora de casa. Segurava-se como um bêbado num poste em um terremoto para não levar o segundo gol, sofrido ainda na primeira etapa. Petkovich alçou bola na área gremista - mais uma das 522 que havia feito no decorrer do jogo. Réver, afastou de cabeça. Souza bicou pra cima. A bola quicou no centro do campo.

Foi, então, que ouviu-se uma estrondo forte. Tão forte que deu interferência nas transmissões, como se fosse uma mão batendo contra uma mesa, com fúria, com vigor. E um clarão surgiu sobre o Maracanã, como se o Sol estivesse a pino. A bola bicada por Souza e que quicou no campo agora estava, inacreditavelmente, saindo do pé direito de Herrera, o reserva de luxo do Grêmio, e iniciava uma viagem de 30 jardas em direção ao gol de Bruno, do Flamengo, que, acreditem, estava parado no limite da grande área. Todos no Maracanã pararam de respirar naquele exato momento, incrédulos no traçado que a bola de Herrera fazia lá no alto, leve, como se carregada por anjos rubros, e que objetivamente, caia sob os arcos da goleira flamenguista, mortal. Naquele exato momento, o Grêmio, quem diria, empatava o jogo com Herrera e dava o título ao Sport Club Internacional.

O Beira-Rio foi tomado de um grito único, ensurdecedor, um 'uuuuaaaaa' animalesco. Não dava tempo para mais nada. O Flamengo, desesperado, agonizava, vendo incrédulo a imortalidade tricolor se materilizar em um novo Maracanaço. Um complô gaúcho que deixou o Flamengo com 65 pontos e vitórias a menos, e que consagrou o Internacional tetra campeão brasileiro.

Eu, Alan Kardec, vi isso.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

NOSTRADAMUS

por Daniel Haigert

Vou dizer-lhes como tudo irá acontecer. Trata-se de um tango escrito por Pablo Guiñazu, e Andrés D´Alessandro.

O Inter começa bem o campeonato. Avassala corações, enche os olhos e empilha vitórias.
Cai na loucura do egocentrismo, vira convencido, destrói-se na soberba, rola na rua da amargura, sob o olhar incrédulo dos fiéis.
Toma tapa na cara, debate-se no interior de si mesmo, e ressurge das cinzas tal qual Fênix, para assombro dos descrentes.
Daí, faltando duas rodadas para o fim do campeonato, a três pontos do Líder São Paulo e a dois pontos do vice líder Flamengo, o Inter reaparece forte e vigoroso.

O Flamengo empata com o Corinthians, 1 a 1, para desespero das emissoras de televisão e do tiozinho que se fantasia de urubu. Ronaldo, brilha muito no Curtintiã.

Enquanto isso em Goiania, Fernandão, o nosso Fernandão, o eterno Capitão, o Colorado Fernandão, sobe no meio da área tricolor paulista. Fernandão voa, e para no ar, tal qual um helicóptero, um beijo-flor, um Dadá Maravilha. Alcança a bola cruzada da ponta direita por ninguém menos do que Pedro Iarley, e solta um petardo de cabeça, indefensável, no ângulo esquerdo de Rogério Ceni. 1 a 0 Goiás.

E no Recife, o Inter metralha o gol do Sport com o contestado Alecssandro e D´Alessandro. Dois gols que deixam o Inter líder, a um passo de ser campeão. O retorno é homérico.

Então, no dia 06 de novembro de 2009, no cair da tarde quente e abafada de Porto Alegre, o Beira-Rio superlota de mantos rubros e brancos. 55 mil vozes recebem o time calorosamente. O Inter a uma vitória do título.

Rola a bola, o adversário, o time paulista de Santo André, já rebaixado, ganha um escanteio. Bola na área Colorada, a zaga cochila, e um zagueiro nascido no interior de Paraguá-Mirim sobe para abrir o placar. Silêncio ensurdecedor.

Enquanto isso, o co-irmão tricolor de Porto Alegre, que foi ao Rio só para sambar com seus reservas, é amassado, trucidado, aniquilado, despido e cuspido em praça pública pelo Flamengo do (antigo e atualizado) Petkovich e do armário Adriano. Empilha gol atrás de gol no infeliz time azulado dos pampas. Delírio no Maracanã. 3 a 0 só no primeiro tempo. Flamengo, então, com 65 pontos.

Da mesma forma, o São Paulo não toma conhecimento do caza caza caza Sport. 2 a 0 na primeira etapa. 65 pontos.

O Inter se descontrola, e no vamo que vamo arranca um gol de chiripa de Marquinhos, num baterebate dentro da pequena área. O Beira-Rio ruge, estremece.

O Flamengo soterra os azulados. 5 a 0. Apreensão no Maraca. No Morumbi, o São Paulo amplia no apagar das luzes, faz 3 a 0 no Sport.

O Brasil inteiro lança seus olhos para o jogo minutos atrasado de Porto Alegre.

O eloquente Mário Sérgio saca o lateral direito Danilo. Entra Andrezinho. Esquema tático alterado, time lançado por completo ao ataque. Sandro toca pra Guiñazu, que toca para D´Alessandre em frente a área, que recebe um butinaço do meia-cancha santoandredense. Falta frontal.

Todos no Brasil param para ver aquele paulista negro, de tranças escuras, criado no Flamengo e esquecido na China, e que foi reavivado pelo Inter, ajeitar a bola com carinho.

Galvão Bueno larga tudo no Maracanã, se mete na transmissão, e solta o brado para que ele erre.

Mas Andrezinho não erra. A bola parte de seus pés levadas por milhões de Colorados espalhados mundo a fora, por 100 anos de história, e atinge o ângulo esquerdo do goleiro do time paulista, extamente naquela goleira mágica, onde Falcão fez o gol da tabela mais linda do mundo, onde Figueroa iluminou a todos, onde Tinga aparou o cruzamento de Fernandão.
Naquela goleira mágica, a bola estufa novamente a rede, atinge-se 65 pontos, mais uma vitória, o Beira-Rio explode de alegria, e o Internacional sagra-se campeão brasileiro pela quarta vez.