segunda-feira, 23 de novembro de 2009

NOSTRADAMUS

por Daniel Haigert

Vou dizer-lhes como tudo irá acontecer. Trata-se de um tango escrito por Pablo Guiñazu, e Andrés D´Alessandro.

O Inter começa bem o campeonato. Avassala corações, enche os olhos e empilha vitórias.
Cai na loucura do egocentrismo, vira convencido, destrói-se na soberba, rola na rua da amargura, sob o olhar incrédulo dos fiéis.
Toma tapa na cara, debate-se no interior de si mesmo, e ressurge das cinzas tal qual Fênix, para assombro dos descrentes.
Daí, faltando duas rodadas para o fim do campeonato, a três pontos do Líder São Paulo e a dois pontos do vice líder Flamengo, o Inter reaparece forte e vigoroso.

O Flamengo empata com o Corinthians, 1 a 1, para desespero das emissoras de televisão e do tiozinho que se fantasia de urubu. Ronaldo, brilha muito no Curtintiã.

Enquanto isso em Goiania, Fernandão, o nosso Fernandão, o eterno Capitão, o Colorado Fernandão, sobe no meio da área tricolor paulista. Fernandão voa, e para no ar, tal qual um helicóptero, um beijo-flor, um Dadá Maravilha. Alcança a bola cruzada da ponta direita por ninguém menos do que Pedro Iarley, e solta um petardo de cabeça, indefensável, no ângulo esquerdo de Rogério Ceni. 1 a 0 Goiás.

E no Recife, o Inter metralha o gol do Sport com o contestado Alecssandro e D´Alessandro. Dois gols que deixam o Inter líder, a um passo de ser campeão. O retorno é homérico.

Então, no dia 06 de novembro de 2009, no cair da tarde quente e abafada de Porto Alegre, o Beira-Rio superlota de mantos rubros e brancos. 55 mil vozes recebem o time calorosamente. O Inter a uma vitória do título.

Rola a bola, o adversário, o time paulista de Santo André, já rebaixado, ganha um escanteio. Bola na área Colorada, a zaga cochila, e um zagueiro nascido no interior de Paraguá-Mirim sobe para abrir o placar. Silêncio ensurdecedor.

Enquanto isso, o co-irmão tricolor de Porto Alegre, que foi ao Rio só para sambar com seus reservas, é amassado, trucidado, aniquilado, despido e cuspido em praça pública pelo Flamengo do (antigo e atualizado) Petkovich e do armário Adriano. Empilha gol atrás de gol no infeliz time azulado dos pampas. Delírio no Maracanã. 3 a 0 só no primeiro tempo. Flamengo, então, com 65 pontos.

Da mesma forma, o São Paulo não toma conhecimento do caza caza caza Sport. 2 a 0 na primeira etapa. 65 pontos.

O Inter se descontrola, e no vamo que vamo arranca um gol de chiripa de Marquinhos, num baterebate dentro da pequena área. O Beira-Rio ruge, estremece.

O Flamengo soterra os azulados. 5 a 0. Apreensão no Maraca. No Morumbi, o São Paulo amplia no apagar das luzes, faz 3 a 0 no Sport.

O Brasil inteiro lança seus olhos para o jogo minutos atrasado de Porto Alegre.

O eloquente Mário Sérgio saca o lateral direito Danilo. Entra Andrezinho. Esquema tático alterado, time lançado por completo ao ataque. Sandro toca pra Guiñazu, que toca para D´Alessandre em frente a área, que recebe um butinaço do meia-cancha santoandredense. Falta frontal.

Todos no Brasil param para ver aquele paulista negro, de tranças escuras, criado no Flamengo e esquecido na China, e que foi reavivado pelo Inter, ajeitar a bola com carinho.

Galvão Bueno larga tudo no Maracanã, se mete na transmissão, e solta o brado para que ele erre.

Mas Andrezinho não erra. A bola parte de seus pés levadas por milhões de Colorados espalhados mundo a fora, por 100 anos de história, e atinge o ângulo esquerdo do goleiro do time paulista, extamente naquela goleira mágica, onde Falcão fez o gol da tabela mais linda do mundo, onde Figueroa iluminou a todos, onde Tinga aparou o cruzamento de Fernandão.
Naquela goleira mágica, a bola estufa novamente a rede, atinge-se 65 pontos, mais uma vitória, o Beira-Rio explode de alegria, e o Internacional sagra-se campeão brasileiro pela quarta vez.



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