quinta-feira, 2 de julho de 2009

A FERRO E FOGO

Por Daniel Haigert

Já nasci Colorado. Meu pai é Colorado e, em condições normais de temperatura e pressão, o filho segue a trilha de seu genitor. Pois bem, ainda no ventre de minha mãe, meu pai já conjeturava meus passos em direção ao Beira-Rio, que nas palavras de Muricy seriam todas as cartaidomingos.
Nasci no ano de 1978, já no final da década mágica do Internacional. Não convivi com as atuações de Falcão, Figueroa, Dario, Carpegiani e outros tantos mestres da bola, senão através de fitas VHS, algumas hoje transferidas para o site do youtube.
Não convivi com eles... mas sobrevivi graças à eles. Tempos duros vieram nas décadas posteriores de 80 e 90. Credo...
A década de 80 foi um caos para o Internacional. Desmontou-se o time que foi campeão brasileiro invicto e depois disso acho que resolveram desmontar todo o resto. Fomentado por uma sucessão de maus administradores, em campo, o Inter perdia até no par ou ímpar. Para avacalhar mais ainda a situação, os de azul resolveram fazer o tema de casa, se arrumaram e saíram do nada para o mundo.
Passei os anos 80 ouvindo meu pai falar, já saudoso, da década áurea do Clube do Povo - tal qual, imagino eu, que aqueles mais velhos deveriam manifestar seu saudosismo na década de 60, relembrando o Rolo Compressor - e vendo Bobô levantar taça na melhor chance que conseguimos naquela década dos infernos. Minha maior alegria foi ter presenciado a virada mais homérica do futebol mundial: o Gre-Nal do Século. Inter 2 x 1 Grêmio. Isso deu-nos uma luz na escuridão dos anos 80.
Mas, nesse cenário infame, lá ia o Daniel pro colégio, com sua camisetinha vermelha por baixo do abrigo Adidas e uma bolinha de meia na mochila, já na espera do recreio. De um lado, postavam-se os descendentes Colorados, de outro os modistas gremistas, pra agilizar logo a coisa.
Mesmo que em desvantagem emocional e mesmo que muitos Colorados que vejo hoje no estádio ficassem omissos quanto ao futebol peleado no colégio, preferindo o futebol de botão, sempre impomos respeito e fizemos frente a quem quer que fosse. Tinhamos uma gana especial - até para com as mulheres.
Mas o poor Daniel não sabia o que ainda estava por vir. A década de 90. Isso sim que foi tortura graças ao meu discernimento das coisas - aliás, há quem diga que a felicidade está na ignorância, pois quanto mais a pessoa aprende, mais ela se desilude. Isso caia feito uma luva na minha visão futebolística.
Se a década anterior ainda tínhamos a sombra de Falcão e uma esperança de título nos pés de Marquinhos, posso dizer que a década de 90, pressionada pela inutilidade dos anos 80, maculou meu orgulho e deu-me somente três alegrias futebolísticas: uma Copa do Brasil, mais suada do que gordo vestindo pelego no Saara; a queda do tricolor para a Segunda Divisão; e o Inter de 97, que foi bem no Brasileiro e emplacou um eterno 5 a 2 em pleno estádio da Azenha, e consagrou Fabiano Cachaça.
Fora essas minhas alegrias, nessa década, os de azul ainda inventaram de meter algumas Copas do Brasil e resolveram encher meu saco com Libertadores. Era demais aos meus ouvidos.
No entanto, por uma obra divina, a geração que tinha 20, 30 anos na década de 70, chegou ao poder no Beira-Rio, e com eles veio a reconstrução de um clube. Devolveram-nos o orgulho e deram-nos os maiores títulos, ao ponto de chegarmos em (mais uma) final, mas que dessa vez, infelizmente, não levamos.
Assim, por ser forjado, criado a ferro e fogo, em um ambiente de rivalidade futebolística eterna e, por longo tempo, desigual, virei macaco velho, vacinado, e não há flauta, corneta ou piadinha que me abale mais.
Ainda mais depois que já ganhei o mundo.

4 comentários:

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  3. Sem contar a torcida civilizada e educada, né?

    http://br.esportes.yahoo.com/noticias/d-sport-atacante-marcelinho-sofre-pedrada-colorados-02072009-82.html

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  4. Com certeza, não tocaríamos flores...

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